A VOLTA DOS BARES SECRETOS “SPEAKEASY” – FRANK´s – PARTE 1

O coração bate e agita no compasso da coqueteleira. Eles são modernos, refinados e geralmente contam com um cérebro mixologista que faz uma carta de drinks impecável. Fachada despercebida e nada de letreiro luminoso na porta, pois a discrição é o sobrenome dos iniciados. Alguns ousam mudar de endereço de tempos em tempos, sendo passados adiante no melhor estilo telefone sem fio 1.0.

Inspirados nos bares clandestinos da década de 20, época da lei seca americana – quando a porta de entrada para acesso aos bares precisava ficar escondida dentro de uma outra singela loja maquiada para abastecer a sede do álcool – eles a cada dia se reinventam e ganham mais espaço nas grandes capitais de todo o mundo.

Nova York já vem há algum tempo borbulhando a volta do espírito speakeasy, onde você precisa saber o endereço certo e ter a senha para entrar no bar. Depois de conhecer esse mundo, você vai saber que uma padaria inocente cheirando a pão quentinho pode contar com uma porta escondida que fermenta e fomenta algo além do pão.

Os hermanos portenhos vêm se contaminando com a febre, encabeçando com honrarias três exemplares de respeito da espécie em Buenos Aires: FRANK’s, Florería Atlântico e 878.

O FRANK’s é o primeiro pit stop obrigatório. Duas senhas são necessárias para adentrar esse bar. A primeira senha é indispensável para passar pelo segurança godzilla na porta, com fachada cimentada quase que despercebida pelas ruas de Palermo. Passando pela primeira fase, o outro estágio é uma área escura e vazia, somente com uma parede preta e uma insólita cabine telefônica pública. Uma outra senha – agora de números – lhe é passada. Na cabine telefônica você digita os números do passaporte para a loteria de tragos. De repente, após a combinação teclada, a cabine telefônica se abre num abracadabra e um corredor escuro com chão de paralelepípedos de rua o leva para um mundo novo.

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Do outro lado, uma decoração ímpar de bom gosto digno do sensacional. A aura de luxo, lustres de salões de baile, mobiliário e expertise brindam a carta de drinks cuidadosamente escolhida para agradar a todos .os paladares. Mas a brincadeira não pára por aí. Quando você pensa estar imerso na vibe speakeasy, vem a entrada na igreja para o casamento perfeito: comida à altura dos drinks. Ah, como eu queria ir a mais casamentos como esse, com mesmo nível de cozinha e bar juntando as escovinhas de dente sob o mesmo teto.

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Agora entra comigo, puxa a cadeira e vamos comer uns tapas junto com um trago. A carta de comidinhas é um suspiro após o outro. Para coroar qualquer noite, a tábua de defumados, que chega com uma cloche. Após destampada, a cloche liberta o vapor defumado que perfuma um trio de queijos patagônicos acompanhando um delicado selles-sur-cher de cabra, escabeche de cordeiro, salmão & cia. Seguindo, a noite reservou a surpresa de croquetas do ossobuco braseado em vinho tinto e vegetais, o mais suculento do qual meu palato já se apeteceu. A harmonização sonora fica a cargo do DJ no segundo piso, que toca o lounge em volume agradável com a melhor safra de vanguarda, ao lado de gramophones acobreados que hipnotizam.

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Guardando a cereja do bolo, os drinks. Cada um com sua certidão de nascimento e história patenteada na carta de tragos. O coração e coqueteleira começam a acelerar no beat de “Sailors & pirates”, a base de flor de cana, cognac, gancia spritz, pomelo, menta e almíbar-syrup. O “Fix no.2” , que já existia desde meados de 1860 pelas terras do Tio Sam, ganha o toque mágico dessa versão do drink com sal marinho, na mesma taça de pincho de framboesas, vodka, limão e almíbar-syrup. O “Sazerac” é outro trago obrigatório, a base de Jim Beam, bitter, amêndoas, açúcar e limão.

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Gastroholic, cozinheira, empresária, ceramista e certificada em jornalismo gastronômico. Chef executiva do catering ARB atuante no setor hoteleiro - RJ. Leia mais