O RAIO GOURMETIZADOR JÁ PERDEU A MAJESTADE: ESTE FOI O NATAL DO RAIO ARTESANATIZADOR

Modo de preparo : subestime a inteligência do consumidor, contrate uma boa agência de publicidade e propaganda que dê roupagem caseira à sua marca, e prevaleça-se da preguiça de ler rótulos, da qual fartamente se alimenta o degustador. Mexa vigorosamente, acrescente os ingredientes “caseiro”, “fermentação natural”, “com carinho” e “artesanal”. Voilá: seu produto artesanal-industrializado está pronto.

A engenharia de embalagens faz uma perfeita harmonização com o conceito criado, desenvolvendo rótulos elaborados para induzir o glutão preguiçoso à falta de identidade verídica do produto. No menu indigesto do artesanal-industrializado, nos são servidos os recursos artenasatizadores, tais quais as embalagens em papel reciclado, overdoses da cor verde, rótulos impressos no vidro no lugar dos rótulos de plástico, potinhos com design que lembram as compotas de doces da vovó, recursos visuais que aludem a um campo verdinho florido com pasto e nascer do sol, e fontes true type fantasticamente desenhadas como letras cursivas – todo o possível para convencê-lo de que o produto foi feito com carinho exclusivamente para você.

São servidos à mesa verdadeiros lobos em pele de cordeiro, vulgo produtos produzidos em grande escala, com utilização de maquinário blaster-tecnológico, sem atenção direta constante do manipulador, juntamente com uma gama de adição de químicas, que fariam Antoine Lavoisier revirar-se de alegria no outro mundo.

Bastaria o degustador ter o apetite para a simples tarefa de olhar o rótulo: gordura hidrogenada, gema de ovo em pó, conservantes, corantes, conservador propionato de cálcio, aditivos e toda sorte de “temperos” que dissociam-se totalmente do tradicional, caseiro e artesanal.

Como costumeiramente me apeteço de bater um pratão de curiosidade, cultivo o exercício do questionar o algoz que subestima minha inteligência consumerista.

O ítem que mais me chamou a atenção nesta época de fim de ano foi o protagonista panetone artesanal industrializado.

Os panetones “artesanais”: alguns categoricamente produzidos por marcas-ícones e gigantes líderes de segmento no mercado brasileiro. Acredito que as empresas imaginem os consumidores vivendo no mundo doce do clipe “California girls” de Kate Perry – Acreditemos que foram produzidos num pequeno pasto no interior, com tempero do orvalho que cai na relva, onde contrataram apenas 15 funcionários para produzirem esses panetones que são encontrados em supermercados do Oiapoque ao Chui, utilizaram ingredientes locais e receitas de família. De preferência um avô italiano ou vovó de óculos e blusa rendada branca, para incorporar à massa o ingrediente verossímel. E, não se esqueça, tudo produzido “com carinho”, especialmente para você e sua família.

Como coadjuvantes ao panetone, caiu mal no estômago ver estabelecimentos servindo pernis para a ceia de natal com “molho da casa” cuja base vem em latões, restaurantes italianos com “massas artesanais” compradas em supermercados e buffets com panetones caseiros recheados com doce de leite pronto em lata.

Por uma questão legal, os furtarei dos gordos registros fotográficos, pois ainda estarmos sofrendo resquícios da era raio processador – onde furar fila é apetite suficiente para objetivar ajuizamento de demanda judicial.

Gastroholic, cozinheira, empresária, ceramista e certificada em jornalismo gastronômico. Chef executiva do catering ARB atuante no setor hoteleiro – RJ.
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