MEUS 10 PEDIDOS PARA AS MESAS DE 2015: DENTRE FOODTRUCKS ACESSÍVEIS, MENOS STORYTELLING E AFINS

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1- FOODTRUCKS COM MENOS PREÇOS DE RESTAURANTE

Os foodtrucks cariocas até pouco tempo atrás ficavam como caçula no carona, olhando o irmão mais velho já com carteira de motorista, na terra da garoa. Já existem registros da espécime há décadas, os ancestrais carrus sapiens, mais conhecidos como trailers de comida de rua. Na tenra infância moderna re-batizada de roupagem hype no início de 2013, passaram então a engatinhar por simpáticas feiras desorganizadas aqui e acolá. Processo necessário, para a evolução da democratização muito bem vinda da comida de rua. Seguindo o processo natural de crescimento e maturidade, fermentado com palmadas, erros e acertos, passaram a produzir comida de qualidade. No entanto, a ginga carioca aprendeu logo uma nova receita e passou a pronunciar uma das suas primeiras palavras: “cifras”. Bastaram inseridos nos cardápios sanduiches de R$25,00, risotos em mini potinhos a R$35 e refrigerantes de R$6,00, para que o molho que estava ficando apetitoso e encorpado “desandasse”. A receita original é tacada certeira e funciona muito bem em feiras espalhadas ao redor do mundo inteiro, de comida apoiada no tripé boa+barata+rápida. A releitura cara e infeliz da receita original é uma distorção indigesta do conceito indissociável do nascimento dos foodtrucks. Atenção foodtruckers: sirvam-se do conceito original sem moderação, mas tornem a adicionar o ingrediente “acessível”, para não salgar o bolso.

2- POR UM COZINHEIRO BOM, LIMPO E JUSTO

Sabemos que a Gastronomia tem sua moda, tal qual uma calça saruel pode ser ode à breguice ou ícone hipster. Gostei de ver a valorização da Gastronomia. Gostei de ver a valorização do pequeno produtor. Gostei de ver a valorização do chef. Gostei de ver a valorização da agricultura aamiliar. Gostei de ver a valorização do produto. Gostei da tríade politicamente correta que preconiza um alimento bom, limpo e justo. Mas, gostaria muito de ver mesmo, finalmente chegar a hora da valorização do cozinheiro, aquele “minion” da cozinha, que trabalha com dedicação para os estrelados “malvados favoritos”. O cozinheiro, a engrenagem abnegada, incansável e fundamental que faz tudo girar e acontecer. Quem deposita amor e energia, declarando todos os dias eu te amo para a comida, em forma de prato. Gostaria muito de ver as gambuzas que enaltecem o produto guarnecidas de personal agricultor, orgulharem-se de levantar a bandeira da valorização do cozinheiro. Só deve bater no peito que serve alimento bom-limpo-justo em sua cozinha, quem engrossa o caldo com valorização do coziheiro bom, limpo e justo. Ambiente limpo, onde o cozinheiro possa fazer decentemente suas refeições de trabalho. Bom tratamento e condições humanas de labuta, sem bulliyng, com refeição de funcionários decente. Trabalho justo, com os direitos trabalhistas fundamentais respeitados, pecúnia justa e proporcional às horas de dedicação, e carga horária na qual o cozinheiro esteja apto a gerir tempo para permanecer se profissionalizando. Sem todos esses ingredientes na panela da cozinha, não existe servido no salão um alimento Bom, Limpo e Justo. O Alimento Bom+Limpo+Justo na mesa do cliente, só existe quando engloba todos os caminhos da comida, e essa estrada não é cimentada sem passar pelo cozinheiro.

3- DEPORTAÇÃO COMPULSÓRIA DE SOMMELIERS DE SANGUE DE BOÁ

Eles entendem tudo de vinho, do cordel ao sarapatel. Na degustação às cegas, vertem a taça para o legítimo “Sangue de boá” e declamam as notas de orvalho, coentro e bergamota. Suas leituras são as cabeceiras guarnecidas com manuais expressos e pesquisas made in Google. Economizam com o restaurate onde levam a esposa, para em outro momento presentear quem lhes interesse com o rótulo mais caro da deli.

4- MENOS STORYTELLING E MAIS RESPEITO AO CONSUMIDOR

Nada pessoal contra o idoso e cândido nonno vovô Genaro, ou cenários de campos verdinhos adornados com árvores frutíferas saudáveis. Mas tenho algo pessoal com desrespeito ao que se seve à mesa. Publicidade é uma verdadeira arte, mas invencionices deslavadas são um desserviço à nação. Verdade seja dita, os limites entre o bem e o mal são realmente tênues, mas se dosados com engenharia social sadia – tema fascinante – engenharias de produto, criatividade de produção e afins, pode ser realizado um trabalho digno. Não bastassem as empresas “criativas”, os chefs aderiram à moda também. Nem o IBGE seria capaz de fazer o censo de uma geração fruto de tão vasta gama de quituteiras procriadas. Todos têm uma receita da avó – cozinheira de mão cheia – ou receitas de gerações de família dignas do constar nos alfarrábios da herança. Essa avó, fazia provavelmente um macarrão a bolognesa delicioso, mas sequer escutou em vida o termo “al dente” que consta nas receitas assinadas e floreadas a azeites trufados. Essa família, tinha uma mãe que vivia enfadada com a criação dos quatro filhos, e pouco antes do marido chegar ao trabalho, passava no restaurante do bairro para pegar o jantar do dia. É singelo associar a imagem profissional à memória afetiva, cozinha de família e “cozinha afetiva”, mas já ficou over a existência de tantos pinóquios de fouet na marcenaria.

5- PENA RESTRITIVA DE LIBERDADE PARA O AZEITE TRUFADO

Pena máxima para a pornografia às trufas. Por menos cardápios com polentas trufadas, com subprodutos dignos de comecialização em postos de gasolina. Por menos conservantes, aromatizantes, estabilizantes e coisas que nos façam morrer an-tes. O consumo constitui-se crime às iguarias in natura, falsificando a assinatura de uma obra da natureza em laboratório, de sabor altamente destoante do original. Os azeites de trufas podem ser sintéticos ou naturais. Mas, acredite, geralmente os comercializados em larga escala e supermercados certamente serão fruto de uma química aromatizante poderosa imersa no produto, cujo sabor e aroma finais não vêm da micro-mini-pocket lasca de trufa imersa.


MEUS 10 PEDIDOS PARA AS MESAS DE 2015 – PARTE 2:

http://panelando.com.br/index.php/meus-10-pedidos-para-as-mesas-de-2015-parte-2/

6- COMIDAS DE BOTECO MENOS MADE IN FRITURAS

7- RAIO PARALISADOR PARA GARÇONS QUE REPÕEM CADA GOLADA DE BEBIDA NO COPO

8- VALORIZAÇÃO DE PRODUTOS REGIONAIS

AGUARDEM EM BREVE – MEUS 10 PEDIDOS PARA AS MESAS DE 2015 – PARTE 3:

9- AÇÃO CIVIL PÚBICA EM PROL DA RETIRADA DO TERMO “GOURMET” DO DICIONÁRIO

10- PELA RELATIVIZAÇÃO DA “ALTA” E “BAIXA” GASTRONOMIA

Gastroholic, cozinheira, empresária, ceramista e certificada em jornalismo gastronômico. Chef executiva do catering ARB atuante no setor hoteleiro - RJ. Leia mais