CUSTO-BENEFÍCIO PARA COMER BEM NO RIO DE JANEIRO

Recentemente me ví entretida e questionada numa discussão filosófica com um amigo cozinheiro acerca de boas opções e do quão caro – ou não – está o comer na Cidade Maravilhosa.

Pra Comer bem no Rio de Janeiro custa mastigar com o cérebro. Senão, seu prato de comida pode poluir mais sua saúde, a natureza e seu bolso, mais do que seu carro. O levado em consideração não é a relativização do caro e barato, e sim a premissa do conceito custo-benefício. Em suma, o conceito de comer bem ser pagar o que, independente da sifra, vale o custo-benefício da experiência.

Não existem anti-cristos da comida. O consumo desacerbado, desproporcional em relação às necessidades diárias e inconsciente é que pode gerar riscos à saúde – a menos que sua comida esteja envenenada. Tome sorvete, coma pão, adore um beurre blanc, queira os orgânicos, prefira produtos locais com a menor distância possível entre o habitat natural e sua boca, e respeite a sazonalidade.

– SORVETE


Descoberto há 3.000 anos pelos chineses, veio ao mundo e foi batizado com um pouco de neve com suco de frutas. A moderna civilização comercial somou à receita porções generosas de gordura hidrogenada e outros índices desconcertantes. Agora na estrada do caminho inverso, é ensaiado um retorno às origens.

Saber comer bem é levar da Rua Dias Ferreira pra casa o pote a R$38,00 1/2 KG de gelato Vechi com cores completamente naturais livre de corantes, com ingredientes certificados IGP – indicação geográfica protegida, frutas selecionadas , sem adição de aromas artificiais, sem gordura hidrogenada, sem produtos geneticamente modificados. Boas lambidas em pistaches sicilianos, cuor de cacau africano 75% e avelãs do Piemonte.

Caro é pagar por pote tradicional em média no sumercado a R$ 22,00 com quase tanta química e aditivos quanto tinta de carro.

– HAMBÚRGUER

Talvez o Hambúrguer tenha virado um dos vilões da alimentação devido aos processos e produtos utilizados em grandes redes comerciais, as quais estão paulatinamente adequando-se às necessidades do novo cérebro do consumidor, que é o termômetro que dirige o mercado da alimentação. Eis que ressurgem hambúrgueres com conceitos e roupagens gourmet que fazem inveja a muitos pratos no salão.

Saber comer bem é pagar R$ 28 por um hambúrguer no TT Burguer, tendo como ingredientes o pano de fundo do lindo Arpoador, pão com batata doce, um blend de carnes interessantes, queijo meia-cura, e opcional de ketchup de goiabada brazuca. O orgulho que as pessoas têm de trabalhar no lugar emana aroma de coisa boa de longe.

Caro é comer hambúrguer de R$ 6 feito com carne de quarta que você jamais se permitiria comprar no supermercado para sua família, ou outros com parcas práticas de higiene e manupulação.


FRANGO

Modernamente há o entendimento de que a evolução industrial modificou tanto e evoluiu os processos do frango, que tal qual a manteiga oscila entre o bem e o mal, sobre os referidos franguinhos grelhados não se sabe mais ao certo quais são os reais vilões, se são os hormônios, os aditivos zootécnicos à ração, antibióticos ativadores de melhoramento de desempenho ou alguma das 1001 maneiras de se preparar Neston. Isso é objeto de horas e horas de pesquisas contrastantes com pareceres desde zootecnistas até jogadores de rinha.

Saber comer é estar no Gávea Garden Bistrô e dividir a mesa com Frango Orgânico regado ao molho de balsâmico e purê de mandioca a R$ 33,50.

Caro é um espetinho de frango grelhado a R$10 na feira típica regional, convivendo com a origem duvidosa da procedência a base de hormônios e antibióticos cavalares dignos de deixar Frida Khalo com inveja do seu buço.

– SALMÃO

Levadas em consideração a origem, qualidade do produto e quais são os produtos oferecidos em relação aos produtos realmente servidos, além das técnicas de corte que têm influência no sabor, para que o bolso pague por quanto a proposta do produto descrita no menu valha. Permeando o mundo do salmão, as eternas inúmeras celeumas que sempre trazem à baila o salmão selvagem x salmão de cativeiro, salmão do Alaska x Truta da Patagônia, alimentação a base de camarão natural e astaxantina x substâncias derivadas do Petróleo, corantes naturais x corantes sintéticos, métodos de abate x entinção…e por aí vai o rosário do salmão.

Saber comer é estar em Ipanema e se deparar com um menu degustação cujo um dos 05 pratos tem como protagonista o salmão selvagem do Alaska, servido em apenas 5% da demanda no Brasil, na faixa de R$156 no Bazzar. ( valor total para os 5 cursos do menu de primavera, incluindo o prato com salmão )

Caro é pagar a faixa do ticket médio de R$ 50 em shopping e se deixar ser dragado por algumas das redes orientais, com trutas salmonadas atropeladas pela inépcia dos cortes, rebatismo de produto e toda sorte de experiências que mancham o sobrenome do nobre salmão. Mais caro ainda custa quando o endereço lhe transporta até nipônicos de mais cifras cujo produto cotinua sendo o “tipo” salmão.

– MASSA

Caro é alçar a média de R$ 30 por uma massa cujo molho é aquele suco de tomate do latão, que desconhece o que seria um ponto al dente, que foi re-congelada e acompanhada da pífia qualidade da carne moída para a bolognesa.

Saber comer é entrar na varanda, puxar a cadeira e se refestelar no nhoque Alessandro & Frederico, que é fresco e artesanal, feito na própria casa com a relíquia do indefectível queijo taleggio, brie, gorgonzola, presunto de parma e nozes por R$46,70.

– SUCO DE POLPA x SUCO INTEGRAL

Saber beber é pagar R$15,00 por uma garrafa de vidro com 1L de suco de uva integral cujo conteúdo da garrafa é 100% fruta, sem uma gota d´água, e geralmente sem adição de açúcar devido à frutose natural que já deixa o paladar agradecido.

Caro é pagar R$7,00 por um copo de suco de 300ml com polpa industrializada congelada de fruta na lojinha cool, por um suco de fruta natural que já fica espremido na jarra dento da cozinha do restaurante esperando o próximo pedido, ou R$4,00 pela prática caixa de 1L no supermercado com as letrinhas pequeninas de “néctar de fruta”.

– BOLINHO DE BACALHAU

Saber comer é Copacabanear por R$ 2,30, e sua entrada para a festa da maior democracia do paladar está garantida, com a participação da patanisca de bacalhau feitinha na hora – sem batata – do Pavão avul. É um mar de bacalhau pra português nenhum colocar defeito.

Caro é sentar nas banquetinhas dos “pé-limpos” – os primos chiques dos “pé-sujo” – e pagar até cinco vezes mais por um batata-lhau.

Gastroholic, cozinheira, empresária, ceramista e certificada em jornalismo gastronômico. Chef executiva do catering ARB atuante no setor hoteleiro – RJ.
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